Aqui, do alto da minha janela protegida do primeiro andar de um prédio da Asa Norte, num Bloco H, terminei de ler o livro A Construção, da Andressa Marques. Trabalhamos juntas no Ministério da Cultura e tenho um carinho especial por ela, além de admiração, que sempre tive e que aumentou com a leitura. Mais que um livro bonito, é um livro importante. Mais que importante, é boa literatura. É boa porque entra na nossa alma. Demorei para ler, me apeguei a ele e queria passar mais tempo junto. Ela fala da questão racial, de uma das primeiras estudantes cotistas da UnB, do que é uma preta ocupar espaço feito para brancas e brancos. Fala da construção de Brasília, essa cidade que amo e que acho linda e que valorizo pela estética modernista, pelas árvores, pela vida que me lembra o interior de São Paulo. Essa cidade que teve, em sua construção, a exacerbação dos 5 problemas de toda construção civil de lugares em “desenvolvimento”, correntes migratórias, exploração da classe trabalhadora e sofrimento. Precisávamos falar da construção de Brasília desse jeito bonito e triste que ela fez. Mas sabe uma coisa que adorei? A relação da estudante da UnB com o pai militante. De onde vem o olhar militante que toma uma causa como o grande (e quase único) movimento de vida e que gera pais que são aqueles não tão ocupados pelas questões mundanas? Como é difícil ser filha de militante político. Eu sei. Ela fala disso. Ninguém fala. E ela faz mais do que isso. Demonstra essa construção, como ela acontece como possibilidade de um lugar de sofrimento e de alguma lucidez. Um viva aos militantes e às filhas, que com poesia conseguem ver, finalmente, que não há outro caminho possível. Mas que militam de um jeito diferente e novo. Obrigada, Andressa Marques.

Helena Terra

Lívia Milanez

Waldomiro J. Silva Filho