A Construção

Andressa Marques

4/5

Aqui, do alto da minha janela protegida do primeiro andar de um prédio da Asa Norte, num Bloco H, terminei de ler o livro A Construção, da Andressa Marques. Trabalhamos juntas no Ministério da Cultura e tenho um carinho especial por ela, além de admiração, que sempre tive e que aumentou com a leitura. Mais que um livro bonito, é um livro importante. Mais que importante, é boa literatura. É boa porque entra na nossa alma. Demorei para ler, me apeguei a ele e queria passar mais tempo junto. Ela fala da questão racial, de uma das primeiras estudantes cotistas da UnB, do que é uma preta ocupar espaço feito para brancas e brancos. Fala da construção de Brasília, essa cidade que amo e que acho linda e que valorizo pela estética modernista, pelas árvores, pela vida que me lembra o interior de São Paulo. Essa cidade que teve, em sua construção, a exacerbação dos 5 problemas de toda construção civil de lugares em “desenvolvimento”, correntes migratórias, exploração da classe trabalhadora e sofrimento. Precisávamos falar da construção de Brasília desse jeito bonito e triste que ela fez. Mas sabe uma coisa que adorei? A relação da estudante da UnB com o pai militante. De onde vem o olhar militante que toma uma causa como o grande (e quase único) movimento de vida e que gera pais que são aqueles não tão ocupados pelas questões mundanas? Como é difícil ser filha de militante político. Eu sei. Ela fala disso. Ninguém fala. E ela faz mais do que isso. Demonstra essa construção, como ela acontece como possibilidade de um lugar de sofrimento e de alguma lucidez. Um viva aos militantes e às filhas, que com poesia conseguem ver, finalmente, que não há outro caminho possível. Mas que militam de um jeito diferente e novo. Obrigada, Andressa Marques.

Confira também

Os dias de sempre_Helena Terra

Os Dias de Sempre

Helena Terra

4/5
Helena Terra fala de relações raciais e de classe. Ela e eu fomos crianças brancas na década de oitenta (a personagem por aí, talvez um pouco antes). O romance retrata o afeto da menina branca pela mãe preta no bojo de uma relação paternalista. Do afeto e da percepção da diferença, porém, sem o respaldo de uma leitura mais clara sobre o que acontecia ali.
4/5
Uma escrita suave que, como quem não quer nada, envolve. Adoro encontrar um livro bem trabalhado na forma. Uma narrativa calma, inteligente e sedutora, que me fez entrar e seguir por linhas, páginas e capítulos sem perceber. Foi um caminhar por Brasília. Fui pega pela mão de um jeito delicado. Senti calma. Um respiro pela cidade junto com as personagens que poderiam ser eu, você, os milhões de nós. Para quem mora aqui, é um presente.
Os dias_Waldomiro

Os Dias

Waldomiro J. Silva Filho

4/5
O livro é um beco sem saída. De uma tristeza. Penso no antes e no depois de um ato brutal – no caso, a violência de Estado da ditadura militar brasileira. Aquilo que esvai o o que entra com força. No caso de Os Dias, acabou o dia a dia familiar, acabou mãe e acabou pai. Acabou o Brasil. Acabou. Mas não terminou.