Os Dias de Sempre

Helena Terra

4/5

Helena Terra fala de relações raciais e de classe. Ela e eu fomos crianças brancas na década de oitenta (a personagem por aí, talvez um pouco antes). O romance retrata o afeto da menina branca pela mãe preta no bojo de uma relação paternalista. Do afeto e da percepção da diferença, porém, sem o respaldo de uma leitura mais clara sobre o que acontecia ali. “Se tem algo que não gosto, em Júlia, é essa mania de excluir Nena de nossa intimidade”. Helena dá detalhes da perversidade e das nuances de como a relação de exploração se dá (gostaria de escrever se dava) no âmbito doméstico. “Tudo muito simples, esquisito e injusto”. Nos conta de dentro, a partir da observação da menina que cresce e reúne elementos para se posicionar – quer mais é cuspir na burguesia, embora ela mesma carregue seu pertencimento de classe. Helena foi corajosa. Ainda colocou o amor no meio da crueldade, e conseguiu fazer isso sem nenhuma hipocrisia. Ficou um livro bonito. Importante. Bem escrito e sensível. Como sempre. Dinâmico. Profundo e muito, muito sincero. O livro me fez pensar para além do que articulei aqui. Obrigada por isso, Helena. Te admiro. Sempre digo. * Livro finalista no Prêmio São Paulo de Literatura 2024, na categoria melhor romance do ano.

Confira também

A Construção_Andressa Marques

A Construção

Andressa Marques

4/5
Aqui, do alto da minha janela protegida do primeiro andar de um prédio da Asa Norte, num Bloco H, terminei de ler o livro A Construção, da Andressa Marques. Trabalhamos juntas no Ministério da Cultura e tenho um carinho especial por ela, além de admiração, que sempre tive e que aumentou com a leitura. Mais que um livro bonito, é um livro importante. Mais que importante, é boa literatura. É boa porque entra na nossa alma.
4/5
Uma escrita suave que, como quem não quer nada, envolve. Adoro encontrar um livro bem trabalhado na forma. Uma narrativa calma, inteligente e sedutora, que me fez entrar e seguir por linhas, páginas e capítulos sem perceber. Foi um caminhar por Brasília. Fui pega pela mão de um jeito delicado. Senti calma. Um respiro pela cidade junto com as personagens que poderiam ser eu, você, os milhões de nós. Para quem mora aqui, é um presente.
Os dias_Waldomiro

Os Dias

Waldomiro J. Silva Filho

4/5
O livro é um beco sem saída. De uma tristeza. Penso no antes e no depois de um ato brutal – no caso, a violência de Estado da ditadura militar brasileira. Aquilo que esvai o o que entra com força. No caso de Os Dias, acabou o dia a dia familiar, acabou mãe e acabou pai. Acabou o Brasil. Acabou. Mas não terminou.