Helena Terra fala de relações raciais e de classe. Ela e eu fomos crianças brancas na década de oitenta (a personagem por aí, talvez um pouco antes). O romance retrata o afeto da menina branca pela mãe preta no bojo de uma relação paternalista. Do afeto e da percepção da diferença, porém, sem o respaldo de uma leitura mais clara sobre o que acontecia ali. “Se tem algo que não gosto, em Júlia, é essa mania de excluir Nena de nossa intimidade”. Helena dá detalhes da perversidade e das nuances de como a relação de exploração se dá (gostaria de escrever se dava) no âmbito doméstico. “Tudo muito simples, esquisito e injusto”. Nos conta de dentro, a partir da observação da menina que cresce e reúne elementos para se posicionar – quer mais é cuspir na burguesia, embora ela mesma carregue seu pertencimento de classe. Helena foi corajosa. Ainda colocou o amor no meio da crueldade, e conseguiu fazer isso sem nenhuma hipocrisia. Ficou um livro bonito. Importante. Bem escrito e sensível. Como sempre. Dinâmico. Profundo e muito, muito sincero. O livro me fez pensar para além do que articulei aqui. Obrigada por isso, Helena. Te admiro. Sempre digo. * Livro finalista no Prêmio São Paulo de Literatura 2024, na categoria melhor romance do ano.

Andressa Marques

Lívia Milanez

Waldomiro J. Silva Filho