A Vida Mais Invisível de Maria das Dores

Armando Milioni

4/5

Nossos livros (Chumbo e A Vida Mais Invisível de Maria das Dores) partem da mesma indignação. Bebem da mesma fonte: a dos acontecimentos históricos sob uma leitura econômico-político-social de esquerda (para evitar discussões entre trotskismos e leninismos). Levamos esse macro dos acontecimentos, visões e leituras de mundo para a vida das pessoas, para o cotidiano. Mesmo com tantas semelhanças, aconteceram dois livros diferentes. O de Armando Milioni atravessa períodos históricos (da Era Vargas até os dias de hoje) com sensibilidade, conhecimento, crítica e, ouso dizer, amor no olhar. Comentei, há alguns dias, que o livro foi uma companhia maravilhosa e isso eu senti do começo ao fim: uma boa conversa, com uma voz “serena e crítica”, o conhecimento implícito, os personagens reais-fictícios, a simplicidade profunda e a delicadeza de me fazer chorar. O autor coloca em relação uma grande quantidade de forças – gênero, raça, classe social, maternidade, prostituição, migração, violência sexual, ditadura, religião, política entre outras. Faz isso sem demonstrar ambição, mas com a naturalidade de um olhar bem-informado e sensível. Armando conseguiu articular as forças de 3 um mundo injusto em sua narrativa, e está tudo ali, dentro e fora das personagens e na vida que conseguem construir. Foi um enorme prazer ler o seu livro, Armando Milioni.

Confira também

A Construção_Andressa Marques

A Construção

Andressa Marques

4/5
Aqui, do alto da minha janela protegida do primeiro andar de um prédio da Asa Norte, num Bloco H, terminei de ler o livro A Construção, da Andressa Marques. Trabalhamos juntas no Ministério da Cultura e tenho um carinho especial por ela, além de admiração, que sempre tive e que aumentou com a leitura. Mais que um livro bonito, é um livro importante. Mais que importante, é boa literatura. É boa porque entra na nossa alma.
Os dias de sempre_Helena Terra

Os Dias de Sempre

Helena Terra

4/5
Helena Terra fala de relações raciais e de classe. Ela e eu fomos crianças brancas na década de oitenta (a personagem por aí, talvez um pouco antes). O romance retrata o afeto da menina branca pela mãe preta no bojo de uma relação paternalista. Do afeto e da percepção da diferença, porém, sem o respaldo de uma leitura mais clara sobre o que acontecia ali.
4/5
Uma escrita suave que, como quem não quer nada, envolve. Adoro encontrar um livro bem trabalhado na forma. Uma narrativa calma, inteligente e sedutora, que me fez entrar e seguir por linhas, páginas e capítulos sem perceber. Foi um caminhar por Brasília. Fui pega pela mão de um jeito delicado. Senti calma. Um respiro pela cidade junto com as personagens que poderiam ser eu, você, os milhões de nós. Para quem mora aqui, é um presente.