Os Perigos do Imperador

Ruy Castro

4/5

Os Perigos do Imperador, do Ruy Castro, não é meu tipo de livro. Mas vou começar pelos méritos. Bem escrito, com as palavras em seus lugares. Foi divertido voltar a ouvir os nomes do Império (conde D’eu, lembram?), acompanhar o giro que ele faz pela cidade Rio de Janeiro. Imaginei o pessoal circulando por lá em 1876, 100 anos antes do meu nascimento. Também gostei de ele fazer uso de documentos históricos, jornais, diários e outros achados. Já pesquisei em documentos históricos e é uma delícia entrar em contato com eles. Então, ativou minha nostalgia. No caso do livro, a gente fica sem saber até que ponto essas cartas existiram mesmo – um romancista é capaz de tudo. Em minha análise aqui. Parece ter havido algumas vantagens no fato de ele se valer de cartas e jornais antigos: conseguiu colocar pontos de vista diferentes sobre os mesmos fatos que, portanto, não chegam a ser fatos, mas versões. Isso é legal. Mais que legal, essencial num romance. Outra vantagem: ir tecendo a trama a partir do emaranhado de falas (cartas, jornais). E assim a trama vai se construindo. Contudo, o que me deixa curiosa não é tanto o que gostei. Mas o que não gostei. Ou seja, por que o livro se tornou chato para mim, apesar dos pontos louváveis? Não deve ser porque tive uma semana ruim. Por serem cartas, matérias de jornal, o livro acaba sendo excessivamente descritivo, a história muito contada. E isso fez com que eu não conseguisse me aproximar. Fiquei distante. Eu estava lendo um romance e não uma matéria de jornal. Fiquei esperando mais. Não veio. Faltou cena, faltou personagem. Penso que caminhar pelos documentos foi a saída que ele encontrou para contar o que queria, e que envolvia personagens históricos. Seria bem mais difícil contar de dentro, mais exigente, mais arriscado também. Colocar o narrador lá, próximo de tudo. Então, ele contou de fora. São minhas conjecturas sobre os processos de decisão do escritor. Para um escritor do nível de Ruy Castro, valeria a pena ter arriscado mais. Muito mais.

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A Construção

Andressa Marques

4/5
Aqui, do alto da minha janela protegida do primeiro andar de um prédio da Asa Norte, num Bloco H, terminei de ler o livro A Construção, da Andressa Marques. Trabalhamos juntas no Ministério da Cultura e tenho um carinho especial por ela, além de admiração, que sempre tive e que aumentou com a leitura. Mais que um livro bonito, é um livro importante. Mais que importante, é boa literatura. É boa porque entra na nossa alma.
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Os Dias de Sempre

Helena Terra

4/5
Helena Terra fala de relações raciais e de classe. Ela e eu fomos crianças brancas na década de oitenta (a personagem por aí, talvez um pouco antes). O romance retrata o afeto da menina branca pela mãe preta no bojo de uma relação paternalista. Do afeto e da percepção da diferença, porém, sem o respaldo de uma leitura mais clara sobre o que acontecia ali.
4/5
Uma escrita suave que, como quem não quer nada, envolve. Adoro encontrar um livro bem trabalhado na forma. Uma narrativa calma, inteligente e sedutora, que me fez entrar e seguir por linhas, páginas e capítulos sem perceber. Foi um caminhar por Brasília. Fui pega pela mão de um jeito delicado. Senti calma. Um respiro pela cidade junto com as personagens que poderiam ser eu, você, os milhões de nós. Para quem mora aqui, é um presente.