Os Perigos do Imperador, do Ruy Castro, não é meu tipo de livro. Mas vou começar pelos méritos. Bem escrito, com as palavras em seus lugares. Foi divertido voltar a ouvir os nomes do Império (conde D’eu, lembram?), acompanhar o giro que ele faz pela cidade Rio de Janeiro. Imaginei o pessoal circulando por lá em 1876, 100 anos antes do meu nascimento. Também gostei de ele fazer uso de documentos históricos, jornais, diários e outros achados. Já pesquisei em documentos históricos e é uma delícia entrar em contato com eles. Então, ativou minha nostalgia. No caso do livro, a gente fica sem saber até que ponto essas cartas existiram mesmo – um romancista é capaz de tudo. Em minha análise aqui. Parece ter havido algumas vantagens no fato de ele se valer de cartas e jornais antigos: conseguiu colocar pontos de vista diferentes sobre os mesmos fatos que, portanto, não chegam a ser fatos, mas versões. Isso é legal. Mais que legal, essencial num romance. Outra vantagem: ir tecendo a trama a partir do emaranhado de falas (cartas, jornais). E assim a trama vai se construindo. Contudo, o que me deixa curiosa não é tanto o que gostei. Mas o que não gostei. Ou seja, por que o livro se tornou chato para mim, apesar dos pontos louváveis? Não deve ser porque tive uma semana ruim. Por serem cartas, matérias de jornal, o livro acaba sendo excessivamente descritivo, a história muito contada. E isso fez com que eu não conseguisse me aproximar. Fiquei distante. Eu estava lendo um romance e não uma matéria de jornal. Fiquei esperando mais. Não veio. Faltou cena, faltou personagem. Penso que caminhar pelos documentos foi a saída que ele encontrou para contar o que queria, e que envolvia personagens históricos. Seria bem mais difícil contar de dentro, mais exigente, mais arriscado também. Colocar o narrador lá, próximo de tudo. Então, ele contou de fora. São minhas conjecturas sobre os processos de decisão do escritor. Para um escritor do nível de Ruy Castro, valeria a pena ter arriscado mais. Muito mais.

Andressa Marques

Helena Terra

Lívia Milanez